Assim como Fluoxetinianas, tinha feito essa playlist para o (re)lançamento do Toca fitas, no ano passado, como Volume 2 de uma playlist de 2022 que teve uma promessa de continuação que nunca rolou.
Dessa vez, além da playlist pronta, também deixei escrito o texto, que mantenho na íntegra:
Conforme prometido, trago mais 24 músicas da década de 1980 pensadas pra favorecer uma caminhada e/ou corrida não só no Minhocão, mas onde você quiser.
Em comum com o Volume 1, coloquei duas músicas na sequência que sempre associei (“Body Rock”, da Maria Vidal, e “Open Your Heart”, da Madonna – repara como a primeira lembra a segunda), emendando na dobradinha de Madonna/Michael Jackson, que também tem por lá.
Outra coisa em comum está nas músicas brasileiras. Tanto lá quanto aqui, tem uma música com arranjo do Lincoln Olivetti (“Estrelar”, do Marcos Valle, e “Saúde”, da Rita Lee) e uma produzida pelo Mister Sam (“Baby Love”, da Rita Cadillac, e “Mas Que Linda Estás”, do Black Junior’s – que, olha só, tá no streaming!).
Aliás, a música da Rita Lee foi uma das últimas a entrar e adorei também pela referência à Rita Cadillac. Uma é fã da outra. 🙂
De diferente, esta lista é mais feminina e tem algumas letras mais noturnas, além de um finalzinho mais puxado para o break e funk.
Sabia que eu nunca tinha postado uma playlist de chuva?
Uma das maiores dificuldades que eu tenho com temas mais óbvios é justamente fugir do óbvio sem que a seleção final deixe de fazer sentido pra quem ouve.
Quando se pensa em músicas sobre chuva, o que vem na cabeça? “Chove Chuva”, “Primavera (Vai Chuva)”, “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, “tomar um banho de chuva / banho de chuva / ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai”? Se eu for só nessa linha, você nem começou a ouvir e já cansou. Mas, se eu fugir muito, também fica alternativa demais e pode ficar chato pra quem não conhece tudo o que tá tocando.
Com o repertório mais ou menos escolhido, também tento colocar algum “molhinho” que deixe ela, de algum jeito, singular. Aqui, por exemplo, é o Lo-Fi inspirado no Brasil ou com músicas brasileiras como base e a mistura disso com gravações do pós-Bossa Nova, pós-Tropicália, soul brasileiro, indie e classic rock. Aí, nesse caldo, dá pra incluir não uma, mas duas versões de “Chove Chuva”, no início de cada “lado”, uma versão menos batida de “Casinha de Sapê” e outras canções que todo mundo conhece/lembra/gosta.
Pra fechar, tem a minha mania nova de Lado A / Lado B, ambos com o mesmo tempo de duração e com diferenças – e referências – entre si. É Mutantes seguidos por Fernanda Takai no Lado A, Pato Fu com versão de Mutantes no Lado B.
Feito isso, é escutar inteira e ver se ficou legal. Eu gostei.
Quem acompanha o Toca fitas deve saber que é muito raro eu fazer uma playlist sobre alguém que acabou de falecer. Tenho muito receio de parecer oportunista, de dar a impressão de que tô publicando um conteúdo pra não perder o assunto do momento e tentar engajamento de carona na comoção.
Exceção foi uma playlist que fiz sobre a Rita Lee quando estava até meio ausente daqui, mas porque era a Rita Lee, e um texto logo que fiquei sabendo da partida da Gal Costa, porque era a Gal Costa.
Da mesma forma, a obra como letrista do Antonio Cicero, que nos deixou na última quarta-feira (23), foi, principalmente pra quem cresceu nos anos 80/90 e sempre foi apaixonado por música, um presente que ajudou a fazer o melhor do país que a gente tem hoje.
Sexta passada eu estive na Casa Lúpulo tocando um set de música brasileira feito ali na hora, depois de alguns meses se atacar de DJ no bar da minha família (a última vez tinha sido no aniversário da casa, em fevereiro – que, aliás, ainda nem postei por aqui).
Foi uma noite gostosa, com o bar cheio e um público simpático e receptivo, como sempre. Foi uma delícia ouvir pessoas falando bem do set, ver gente dançando… Tava um clima muito bom!
O clima refletiu no set, que deixo aqui em formato de playlist. São mais de 3h de música brasileira diversa em épocas, vozes e estilos.
Se você não foi, vou voltar a tocar periodicamente por lá, sempre anunciando antes no Instagram daqui (o @tocafitaspontocom) e no de lá (@casalupulosp).
Montei essa playlist entre setembro e novembro do ano passado, logo depois de mexer na cara do site e anunciar que voltaria a fazer listas específicas para o Toca fitas, mas acabei nunca postando.
Olhando pra trás, tudo tem um significado diferente e parece falar sobre como, inconscientemente (ou não?), a escolha das músicas e a decisão de não postar já tinham a ver com o que eu tava vivendo.
O nome “Fluoxetinianas” é daquela época, em referência ao medicamento que me ajudava a passar por um período de ansiedade, mas também tem um quê irônico se for associado àquele estigma que algumas pessoas têm – e que eu já tive – de que medicamento psiquiátrico é uma coisa que deixa quem toma alegre de forma artificial/automática, como se fosse uma chavinha que se vira pra ficar “de bem com a vida” independentemente do que esteja acontecendo.
A descrição, da mesma época, acho mais precisa e mais profunda: trilha nostálgica-solar pra colorir a vida.
Acho curioso e meio sintomático esse negócio de título/Lado A ter uma pegada mais dura e descrição/Lado B ter uma coisa mais íntima.
Sobre não ter postado, o óbvio. A gente descobriu complicações da doença da minha mãe em dezembro do ano passado. Começamos 2024 esperançosos tanto no sentido de acreditar em cura quanto no sentido de esperar mesmo, de deixar muita coisa em suspenso projetando celebração pra quando aquela turbulência de saúde passasse.
Pra se ter uma ideia, não postei nada aqui, mas fiz outro tipo de playlists naquele momento. Tinha comprado um tape deck e comecei a gravar fitas k-7, algumas pensando, por exemplo, em tocar num Natal ou ano-novo – faz anos que a gente passa essas festas de fim de ano em casa, alternando entre casas.
E essa playlist, apesar do título dúbio, ficou guardada pra esse momento mais leve. Infelizmente, não é nesse contexto que eu posto ela aqui agora.
De qualquer forma, acho importante postar. Esse exercício de revisitar os últimos meses com ela por aqui, que continua sendo extremamente doloroso, tem outros lados: ao mesmo tempo que faz perceber que muito do que a gente expressava na superfície como esperança tava cheio de medo em camadas mais profundas, também tem a beleza de ter ela por aqui – e ela fazia os dias mais bonitos mesmo quando não estava se sentindo bem.
E aí fica gostoso de ouvir. E me ajuda numa coisa muito difícil quando se passa pelo que a gente tá passando, que é ligar quem a gente já foi com essa vida nova que tá começando.
Em tempo: sou tão metódico que tenho feito playlist no Spotify com Lado A e Lado B respeitando a duração de cada lado de uma fita k-7. Pode parecer meio nada a ver, mas acho que isso ajuda a explicar porque me faz tão bem “elaborar” o que eu tenho sentido, tentar entender cada etapa desse processo, mesmo que precise revisitar o tema tantas vezes em conversas comigo mesmo.
Em tempo (2): se você leu esse textão todo, obrigado! 🙂