Como em outros inícios de “temporada”, escolhi uma seleção 100% brasileira, e uma nova versão da última playlist que postei antes desse último hiato.
Falo em nova versão em vez de continuação porque a primeira Brasiliana era uma seleção de clássicos brasileiros que fazem parte do meu repertório pessoal, inclusive com reprises de vários artistas que já apareceram em listas daqui e/ou nos meus sets da Casa Lúpulo.
A playlist de hoje vem com uma tentativa de mesclar diferentes ideias de Brasil através da música de várias épocas e regiões, tendo como unidade uma coisa que eu adoro: uma música levar à outra. Seja pela letra, pelo compositor, pela sonoridade ou por alguma referência que pode tanto ser mais óbvia quanto aparecer só quando você presta mais atenção – por isso recomendo escutar com o shuffle desligado. 😉
Com tantos sotaques, rimos e ideias de Brasil, os 90 minutos da fita passam sem cara de repetição.
Por acaso, meu último post aqui foi sobre o fim da Rádio Eldorado, em maio. Se você era ouvinte, provavelmente já está sabendo, mas não custa reforçar que a Eldorado volta no próximo dia 7, com patrocínio da Porto, e prometendo a mesma curadoria musical que marcou a história da emissora tanto em 92,9 quanto em 107,3.
Você também já deve saber que a Eldorado vai voltar em 107,9 FM, no lugar da Tropical FM.
Mesmo prometendo voltar com o mesmo conteúdo que tornava a Eldorado tão singular, já se sabe que o André Góis não voltará com seu “A Hora da Vitrola”, que virou programa independente com site próprio – uma baixa que vai fazer falta e que eu nem entendo o porquê. De qualquer forma, torço por vida longa na nova frequência com a mesma qualidade.
Enfim, o rádio vive, tem público, e tomara que continue tendo espaço pra conteúdos variados, curadoria humana e comunicação ao vivo.
Aproveitando a carona, quero registrar que também estou voltando de novo com playlists novas por aqui. De vez em quando eu dou umas paradas, cada vez com seus motivos, mas sempre gosto de voltar – também prefiro parar quando não estou no clima de postar regularmente e só voltar quando dá vontade.
Dessa vez, minha preguiça foi com redes sociais. Faz tempo que o meu trabalho aqui não é pensado pra aproveitar trends ou “bombar” no Instagram (se é que já houve essa intenção); acho chato demais ter que “vender” repetitivamente o que eu faço como hobby e ainda ter que lidar com entregas cada vez menores, provavelmente motivadas também por esse meu desleixo.
No decorrer do mês, vi tanta gente com tanta participação efetiva na história da Rádio Eldorado de São Paulo, extinta na virada do dia 14 para 15 de maio, que fiquei em dúvida se escrevia algo ou não. Por mais que a fala da Fabiana Ferraz, quando disse que a relação mais pura que se pode ter com uma rádio é a de ouvinte, tenha me estimulado, não queria, como ouvinte, escrever nada que caísse em clichês – ainda que eles só existam porque são reais.
Estava no Rio de Janeiro na semana derradeira da Eldorado e comprei um porta-CDs em formato de hambúrguer numa dessas lojas que misturam antiguidades com cacarecos. Chegando em casa, resolvi rechear esse hambúrguer com CDs que gravei nos anos 2000 a partir de MP3 que baixava na época e que não ouvia há tempos. E resolvi colocar um deles pra tocar. O nome da “coletânea” é ≠, em referência ao slogan “descubra o diferente”, da Brasil 2000 FM (outra marca extinta que também transmitia em 107,3 MHz), na época em que tinha o Kid Vinil como coordenador artístico.
O CD tem várias músicas que eu já incluí em outras playlists, mas juntas, nesse contexto, são como uma cápsula do tempo da minha época de faculdade. Mas esse nem é o ponto.
A Brasil 2000 do “descubra o diferente” e a Eldorado de tantas fases têm algo em comum para mim, que é a curadoria humana. É esse papel que o rádio já teve e que a Eldorado ainda tinha de apresentar músicas aos ouvintes, construindo o nosso repertório não com base só no que a gente já ouve, mas também no que poderia experimentar e gostar.
Eu nasci em 1982, mesmo ano em que o João Lara Mesquita assumiu a direção da Eldorado e começou a revolucionar a programação. Como sempre gostei de rádio e ouvia, desde criança, emissoras de todos os estilos, construí meu repertório a partir delas, e a Eldorado esteve presente em diversas fases da minha vida.
Era outro momento do mundo, eu era jovem… Enfim, “têm várias camadas” (e olha eu usando um termo clichê), mas fiquei triste com a saída da Eldorado, claro, e também – e esse é o ponto que eu queria ressaltar – com a falta de transparência na comunicação do Grupo Estado sobre esse fim.
A desculpa preguiçosa justificativa do primeiro comunicado era que o consumo de áudio tinha mudado muito depois da pandemia – apesar do crescimento da audiência de várias emissoras e até do aumento de participação daquelas voltadas ao público “adulto-contemporâneo” no top 10 de várias capitais – e que o super ascendente e vanguardista Grupo Estado priorizaria plataformas digitais, multimídia… Essas coisas que não necessariamente foram priorizadas até agora.
No último dia, depois de toda a comoção dos ouvintes, o discurso mudou para algo do tipo: “reconhecemos a relevância da Eldorado e estamos dispostos a conversar com patrocinadores e investidores para mantê-la no ar em outra frequência”. Qual das duas versões é verdadeira eu não sei, mas o contrato de quem era CLT encerrou no último dia da Eldorado em 107,3.
Fiquei triste, mas não surpreso, até porque esse fim não é de agora. Começou quando a concessão AM foi vendida para o RR Soares e a programação veio para os 92,9 FM com o nome de Rádio Estadão – frequência que também foi vendida, anos depois, para o Ratinho, que colocou no lugar sua Massa FM.
Desde que saiu dos 92,9 MHz, a Eldorado deixou de ser uma rádio comercial e de ter frequência própria; arrendou a concessão educativa da antiga Brasil 2000 (atual Fundação Gamaro). Aí é só somar: alcance menor, limitações de patrocínio pela natureza da concessão e pagamento de aluguel, tudo isso vinculado a um grupo de comunicação cada vez mais enfraquecido.
Enfim, é isso. Uma pena. É daqueles veículos de comunicação que deixam uma lacuna que não vai ser preenchida. E que, apesar das dificuldades, manteve seu esforço em zelar, até o fim, pelo nome que o Estadão jogou fora de uma hora para outra.
No final de 2023, quando a gente descobriu que a doença da minha mãe tinha se agravado, a Mundo Caielli, uma loja de arte e antiguidades que ficava em frente ao Parque Augusta, estava fechando e eles estavam vendendo uns pacotões com fitas K-7 já gravadas por um preço mínimo. Comprei algumas para regravar.
A ideia, naquele momento em que eu estava numa pausa no Toca fitas, era gravar seleções com músicas que eu gostava e não tinha ainda em mídia física para ouvir principalmente no futuro, quando aquela fase difícil tivesse passado. Era música pra tocar em festa quando a minha mãe estivesse curada.
Ela partiu desse plano e essas fitas não chegaram a ser usadas com esse propósito, mas o processo de gravação com essa intenção foi importante pra mim naquele momento.
Mesmo tendo músicas que eu gosto e que não me canso de ouvir, demorei pra voltar a ouvir as fitas sem associar àquele contexto. Agora, compartilho por aqui com um sentimento de que elas também representam uma conexão entre a vida que tive até março de 2024 e a vida atual.
Essa, especificamente, uma fita Sony japonesa dos anos 70 com 90 minutos de duração e nível baixíssimo de ruído, usei pra gravar clássicos brasileiros que já apareceram muito tanto em playlists minhas quanto em sets que já toquei na Casa Lúpulo. Mas eu já disse que é coisa que não me canso de ouvir, né?
Reprises de Gal Costa, Jorge Ben Jor e A Cor do Som
Em tempo: o imóvel onde ficava a Mundo Caielli já foi demolido: vai virar prédio residencial.
A playlist de hoje é uma fita de que eu gravei pra minha mãe quando tinha 13 anos com flashbacks românticos no estilo das rádios Alpha e Antena 1 – que já eram referência nesse estilo de rádio – usando como repertório faixas que a gente tinha na época em vinil.
Lado A Simply Red – For Your Babies (1991)
Dionne Warwick – I’ll Never Love This Way Again (1979)
Whitney Houston – One Moment in Time (1988)
Eric Clapton – Tears in Heaven (1992)
Bangles – Eternal Flame (1988)
Freddie Mercury, Montserrat Caballé – How Can I Go On? (1989)
Clifford T. Ward – Gaye (1973)
Wet Wet Wet – Love is All Around (1994)
Lado B
Rick Astley – Cry For Help (1991)
a-ha – Hunting High and Low (1985)
Kenny Rogers – You and I (1983)
Culture Club – Love is Love (1984)
Barry Manilow – Ready To Take a Chance Again (1978)
Rockwell – Knife (1984)
Elton John – Skyline Pidgeon (1969)
Faith No More – Easy (1992)