Desde 2014, posto playlists por aqui, várias delas só com música brasileira, que é o que eu mais escuto no meu dia a dia. Mesmo quando não é o propósito, é comum aparecerem canções com arranjos solares e letras que exaltam a nossa diversidade de ritmos e sotaques. E isso acontece naturalmente, porque é o Brasil que eu gosto e quero.
No começo do mês, postei Brasiliana 2, uma seleção com diferentes ideias de Brasil, de Hermeto Pascoal a Timbalada, e que dava continuidade a outra com clássicos do meu repertório pessoal. Nesta semana, voltei a ouvir a playlist do início do mês e ela ganhou um gosto diferente. Foi daí que veio inspiração pra Brasiliana de hoje, que encerra essa série.
Dessa vez, a ideia foi destacar o movimento e a mistura. Não por acaso, começa reafirmando que o Brasil não nasceu no descobrimento, mas com os povos originários, e segue, no Lado A, com mobilização e festa se confundindo.
O Lado B vem com gravações menos óbvias dos anos 70 e 80. E, ao longo da fita, músicas mais recentes mostram como tudo isso continua se misturando. É uma playlist sobre diversidade, mas também sobre o que temos em comum.
Eu não sou influencer e o que eu posto normalmente é entregue pra quase ninguém. Mesmo assim, como cidadão, não consigo não falar sobre esse segundo turno absurdo que o Brasil está vivendo enquanto estou escrevendo isso – até porque tá difícil pensar em outra coisa na maior parte do tempo.
Tem muita gente boa tentando explicar, cada um do seu jeito, os riscos reais da eleição do Flavio Bolsonaro. Desde as coisas mais simples, como mostrar que não é só uma disputa entre esquerda e direita e que o bolsonarismo não representa a direita, mas um culto a uma família de pretensões autoritárias, até o óbvio de que não dá pra prometer um corte de 250 bilhões do orçamento sem sacrificar previdência, aposentadoria, programas sociais e direitos trabalhistas, até o caráter explicitamente FASCISTA da ideologia daquela família (o grupo do PL no WhatsApp publicou imagem do Flavio Bolsonaro com referência à propaganda do Mussolini – e a imprensa trata isso como só mais uma notícia!).
Já temos um congresso eleito majoritariamente de extrema direita, precisamos do Lula nem que seja para garantir um mínimo de equilíbrio até 2030, sem contar as próprias eleições de 2030. No mais, um segundo governo explicitamente fascista com um congresso mais à direita do que já era entre 2019/2022 pode ser ainda mais nocivo para todas as minorias, das quais também me incluo.
Se não bastasse isso, o segundo turno já é absurdo pela própria figura do Flavio Bolsonaro: um cara que está há décadas no parlamento sem ter apresentado nada de útil para o país, funcionário fantasma desde o primeiro emprego com indícios descarados de corrupção e de envolvimento com milícias e crime organizado. Uma pessoa que não deveria nem poder ser candidato se o país já não estivesse doente como está.
Enfim… Esse não é o meu foco aqui. Quero fazer a minha parte do meu jeito, por isso separei uma hora de música pra ajudar a estimular quem tem noção dos riscos que o Brasil corre a não perder a esperança, a continuar se empenhando pra virar voto porque “afinal de contas, não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo”.
Estou com medo? Sim. Mas continuo com esperança de que a gente não caia nesse buraco.
Como em outros inícios de “temporada”, escolhi uma seleção 100% brasileira, e uma nova versão da última playlist que postei antes desse último hiato.
Falo em nova versão em vez de continuação porque a primeira Brasiliana era uma seleção de clássicos brasileiros que fazem parte do meu repertório pessoal, inclusive com reprises de vários artistas que já apareceram em listas daqui e/ou nos meus sets da Casa Lúpulo.
A playlist de hoje vem com uma tentativa de mesclar diferentes ideias de Brasil através da música de várias épocas e regiões, tendo como unidade uma coisa que eu adoro: uma música levar à outra. Seja pela letra, pelo compositor, pela sonoridade ou por alguma referência que pode tanto ser mais óbvia quanto aparecer só quando você presta mais atenção – por isso recomendo escutar com o shuffle desligado. 😉
Com tantos sotaques, rimos e ideias de Brasil, os 90 minutos da fita passam sem cara de repetição.
Por acaso, meu último post aqui foi sobre o fim da Rádio Eldorado, em maio. Se você era ouvinte, provavelmente já está sabendo, mas não custa reforçar que a Eldorado volta no próximo dia 7, com patrocínio da Porto, e prometendo a mesma curadoria musical que marcou a história da emissora tanto em 92,9 quanto em 107,3.
Você também já deve saber que a Eldorado vai voltar em 107,9 FM, no lugar da Tropical FM.
Mesmo prometendo voltar com o mesmo conteúdo que tornava a Eldorado tão singular, já se sabe que o André Góis não voltará com seu “A Hora da Vitrola”, que virou programa independente com site próprio – uma baixa que vai fazer falta e que eu nem entendo o porquê. De qualquer forma, torço por vida longa na nova frequência com a mesma qualidade.
Enfim, o rádio vive, tem público, e tomara que continue tendo espaço pra conteúdos variados, curadoria humana e comunicação ao vivo.
Aproveitando a carona, quero registrar que também estou voltando de novo com playlists novas por aqui. De vez em quando eu dou umas paradas, cada vez com seus motivos, mas sempre gosto de voltar – também prefiro parar quando não estou no clima de postar regularmente e só voltar quando dá vontade.
Dessa vez, minha preguiça foi com redes sociais. Faz tempo que o meu trabalho aqui não é pensado pra aproveitar trends ou “bombar” no Instagram (se é que já houve essa intenção); acho chato demais ter que “vender” repetitivamente o que eu faço como hobby e ainda ter que lidar com entregas cada vez menores, provavelmente motivadas também por esse meu desleixo.
No decorrer do mês, vi tanta gente com tanta participação efetiva na história da Rádio Eldorado de São Paulo, extinta na virada do dia 14 para 15 de maio, que fiquei em dúvida se escrevia algo ou não. Por mais que a fala da Fabiana Ferraz, quando disse que a relação mais pura que se pode ter com uma rádio é a de ouvinte, tenha me estimulado, não queria, como ouvinte, escrever nada que caísse em clichês – ainda que eles só existam porque são reais.
Estava no Rio de Janeiro na semana derradeira da Eldorado e comprei um porta-CDs em formato de hambúrguer numa dessas lojas que misturam antiguidades com cacarecos. Chegando em casa, resolvi rechear esse hambúrguer com CDs que gravei nos anos 2000 a partir de MP3 que baixava na época e que não ouvia há tempos. E resolvi colocar um deles pra tocar. O nome da “coletânea” é ≠, em referência ao slogan “descubra o diferente”, da Brasil 2000 FM (outra marca extinta que também transmitia em 107,3 MHz), na época em que tinha o Kid Vinil como coordenador artístico.
O CD tem várias músicas que eu já incluí em outras playlists, mas juntas, nesse contexto, são como uma cápsula do tempo da minha época de faculdade. Mas esse nem é o ponto.
A Brasil 2000 do “descubra o diferente” e a Eldorado de tantas fases têm algo em comum para mim, que é a curadoria humana. É esse papel que o rádio já teve e que a Eldorado ainda tinha de apresentar músicas aos ouvintes, construindo o nosso repertório não com base só no que a gente já ouve, mas também no que poderia experimentar e gostar.
Eu nasci em 1982, mesmo ano em que o João Lara Mesquita assumiu a direção da Eldorado e começou a revolucionar a programação. Como sempre gostei de rádio e ouvia, desde criança, emissoras de todos os estilos, construí meu repertório a partir delas, e a Eldorado esteve presente em diversas fases da minha vida.
Era outro momento do mundo, eu era jovem… Enfim, “têm várias camadas” (e olha eu usando um termo clichê), mas fiquei triste com a saída da Eldorado, claro, e também – e esse é o ponto que eu queria ressaltar – com a falta de transparência na comunicação do Grupo Estado sobre esse fim.
A desculpa preguiçosa justificativa do primeiro comunicado era que o consumo de áudio tinha mudado muito depois da pandemia – apesar do crescimento da audiência de várias emissoras e até do aumento de participação daquelas voltadas ao público “adulto-contemporâneo” no top 10 de várias capitais – e que o super ascendente e vanguardista Grupo Estado priorizaria plataformas digitais, multimídia… Essas coisas que não necessariamente foram priorizadas até agora.
No último dia, depois de toda a comoção dos ouvintes, o discurso mudou para algo do tipo: “reconhecemos a relevância da Eldorado e estamos dispostos a conversar com patrocinadores e investidores para mantê-la no ar em outra frequência”. Qual das duas versões é verdadeira eu não sei, mas o contrato de quem era CLT encerrou no último dia da Eldorado em 107,3.
Fiquei triste, mas não surpreso, até porque esse fim não é de agora. Começou quando a concessão AM foi vendida para o RR Soares e a programação veio para os 92,9 FM com o nome de Rádio Estadão – frequência que também foi vendida, anos depois, para o Ratinho, que colocou no lugar sua Massa FM.
Desde que saiu dos 92,9 MHz, a Eldorado deixou de ser uma rádio comercial e de ter frequência própria; arrendou a concessão educativa da antiga Brasil 2000 (atual Fundação Gamaro). Aí é só somar: alcance menor, limitações de patrocínio pela natureza da concessão e pagamento de aluguel, tudo isso vinculado a um grupo de comunicação cada vez mais enfraquecido.
Enfim, é isso. Uma pena. É daqueles veículos de comunicação que deixam uma lacuna que não vai ser preenchida. E que, apesar das dificuldades, manteve seu esforço em zelar, até o fim, pelo nome que o Estadão jogou fora de uma hora para outra.