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Domingo, 18h30

Domingo, 18h30

Pra mim, a maior graça de criar uma playlist é fazer uma música “chamar” a outra. Apesar disso, faz um tempo que evito detalhar muito os meus porquês da ordem das músicas por três motivos: por acreditar que ninguém quer ler, pra evitar textão – que demora pra fazer porque eu sempre acho que tá ruim – e porque tem coisa que é muito maluquice minha, coisa da minha cabeça. Mas vou fazer uma exceção pra falar pelo menos do começo dessa, que tem uma contradição proposital.

A primeira canção, “Magrelinha”, já tem uma letra que nunca sei se é mais melancólica ou mais positiva. As duas seguintes conversam entre si de forma contraditória, mas com um cenário comum (casa): “entre por essa porta agora” espera por alguém ausente (“Vambora”); “se você passar daquela porta” pede pra alguém presente não ir embora (“Grilos”). Na sequência, “Lá Vou Eu” continua em casa e é tão solitária/introspectiva quanto esperançosa.

A partir daí, a seleção vai seguindo com ligações mais fáceis de perceber, como a citação de “Consolação” (Baden Powell / Vinícius de Moraes) em “It’s a Long Way”, seguida por “Tempo de Amor”, também composta pelos dois, e pelo próprio Vinícius na “Carta ao Tom 74” – que conecta a nostalgia de um Rio de Janeiro do tempo de “Canção do Amor Demais” que já não existia mais em 1974 com o paraíso pavimentado da Joni Mitchell em “Big Yellow Taxi”.

Enfim, Domingo, 18h30 aprofunda o sentimento de “dor da tarde” que começa na sua antecessora, Domingo, 17h.

Em tempo: descobri recentemente que essa melancolia de fim de tarde tem um nome específico em tupi: karukasy. Se eu fizer uma outra lista sobre isso no futuro, já tenho um título.

Domingo, 18h30 - Lado A
Domingo, 18h30 - Lado B

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Domingo, 17h

Domingo, 17h

Essa playlist tem mais de dez anos desde a primeira versão, que eu fiz com MP3 pra escutar no celular. Nunca postei porque nunca achei que estivesse pronta. Fiz várias mudanças recentes que foram mudando essa minha percepção.

Com o que tenho vivido nos últimos dois meses, acho que fica até desnecessário explicar o que eu queria dizer sobre o sentimento de fim de tarde de domingo que tá nessa lista – e na continuação dela, a próxima que vou postar aqui.

Só quero contar do último teste antes de postar, que foi no começo do mês, dia do trabalhador. Fui tomar uma cerveja com o meu namorado num bar próximo ao Sesc Pompéia. Escutei enquanto voltava a pé pra casa pela Francisco Matarazzo e pelo Minhocão fechado pra carros e me emocionei com a sequência de músicas.

Tudo bem que eu tenho me emocionado com MUITA coisa ultimamente, mas considerei um sinal de que a playlist estava pronta.

Sugiro desligar o shuffle.

Domingo, 17h - Lado A
Domingo, 17h - Lado B

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Sobre a Virada Cultural de São Paulo

Sobre a Virada Cultural de São Paulo

Entre hoje e amanhã (18 e 19/05) acontece a edição de 2024 da Virada Cultural, ou o evento que hoje usa o nome Virada Cultural e que não tem nada a ver com o que já foi.

Nesse ano, “a Virada Cultural virou virada da solidariedade” por conta do desastre ambiental que acontece no Rio Grande do Sul, mas o título, inicialmente, repetiria o mesmo usado no ano passado, “Virada do Pertencimento”. Mas que de pertencimento, pelo menos pra mim, não tem nada. E é sobre isso que quero falar aqui.

O argumento de pertencimento da Prefeitura de São Paulo, que foi o da atual secretária de Cultura, Aline Torres, em 2023, era de que descentralizar a virada faria com que o palco deixasse de ser no Copan para ser na Cohab Itaquera, como se fosse excludente fazer um evento no centro da cidade feito para a cidade toda.

Nasci e vivi até os meus 34 anos na Vila Maria, zona norte. E a zona norte de São Paulo tem uma cara muito de cidade do interior: a gente resolve tudo na própria região, sai pouco do bairro e até evita outras regiões. Tem um grupo de samba da Vila Maria, por exemplo, que o meu pai já convidou várias vezes pra tocar na Casa Lúpulo e eles nunca aceitaram nem conhecer o bar porque têm medo do centro. Não julgo, na minha adolescência também tinha medo.

Outro dia, estava conversando com um amigo também nascido na zona norte e lembrando que só começamos a visitar outras regiões a partir da faculdade, onde a gente foi conhecendo pessoas de outras regiões, com outras realidades e outras vivências. E, mesmo assim, não nos sentíamos incluídos, por exemplo, na região da Av. Paulista, por mais que existissem tantas estações de metrô com ligação fácil para lugares que a gente conhecia/frequentava, como Santana ou Barra Funda.

Meus pais também viveram isso em outra geração. A vida social era na Vila Maria ou, no máximo, nos cinemas e pastelarias da Av. Celso Garcia, no Brás (que ainda é caminho de vários ônibus que passam pela Vila Maria). Eles só começaram a conhecer esses pontos turísticos “clichê” de São Paulo, como Copan, Avenida Paulista ou Parque Ibirapuera, depois que a minha irmã e eu já conhecíamos.

E aí é que tá o meu “testemunho” sobre pertencimento. A Virada Cultural, aquela dos primeiros anos, contribuiu muito para o meu pertencimento à cidade de São Paulo. Era muito mágico passar a madrugada numa região que eu jamais frequentaria naquele horário e que nunca tinha visto cheia de gente, cheia de eventos, tudo acontecendo próximo.

Não ignoro os problemas de segurança que aconteceram em várias edições, mas sabe aquela coisa de jogar fora o bebê junto com a água do banho? É isso que foi feito com a Virada Cultural pelo Ricardo Nunes, e que se reforça nessa falácia de pertencimento.

Por que a Virada Cultural no centro da cidade (com ônibus e metrô gratuitos na madrugada, por exemplo) é menos inclusiva do que ter palcos espalhados com shows grandes em todas as regiões da cidade? O centro da cidade pertence a todos, de todas as regiões, de todas as classes sociais. Como fazer as pessoas se apropriarem do centro – e da própria cidade – tirando o único evento recente que trazia gente da cidade toda pra vivenciar a região?

Aí a Prefeitura gasta 60 milhões nessa Virada, maior investimento em dez anos, faz uma divulgação tão pífia que parece boicote, e tira o que era o diferencial do evento.

Reprodução X (antigo Twitter)

Sabe o que é a Virada Cultural? Ter um palco de música no Copan, outro na Praça da República, outro na Av. São João, outro no Largo do Paissandu, outro no Largo do Arouche – saudade do palco brega do Arouche! – e várias outras intervenções acontecendo entre um palco e outro. É caminhar pela cidade de madrugada saindo de um show e ver um video mapping, passar por um cortejo, um palco de literatura, uma exibição de clássicos do cinema numa sala que normalmente só exibe pornô e ainda ter vários bares e lanchonetes funcionando a noite toda. Não é um show da Pablo Vittar às duas da manhã no “novo” Vale do Anhangabaú cercado para o público deixar o espaço com o entorno deserto – reforçando a ideia de insegurança do centro da cidade.

Minha irmã trabalhou na Virada durante alguns anos em que fez parte do coletivo Poesia Maloqueirista, com atividades que já aconteciam no decorrer do ano. Isso trazia o público que acompanhava o coletivo para a Virada Cultural e ainda apresentava aquele conteúdo pra gente nova.

O cantor Leonardo vai receber R$ 550 mil de cachê. Tudo certo, é o cachê dele; também já vi apresentações de artistas muito famosos que devem ter cachês altos na Virada Cultural, como Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Jorge Ben Jor. Mas quanta gente daria pra contratar com menos nomes “grandes” na programação – e, principalmente, se a Virada voltasse a investir no formato original que era seu diferencial?

A Prefeitura também já argumentou contra a sobreposição de eventos num mesmo horário como justificativa para descentralizar a Virada. Então por que não fazer outros festivais nas outras regiões nos finais de semana subsequentes com alguns desses artistas que se apresentaram em horários sobrepostos na Virada? Isso permitiria que gente de todas as regiões pudessem visitar/viver o centro da cidade de madrugada da Virada Cultural, como no formato original, e ainda estimularia gente da cidade inteira a visitar todas as regiões no decorrer do mês!

Enfim, só deixo esse textão aqui porque é algo que eu sempre falo pessoalmente e que me deixa triste. É impressionante como a gestão do Ricardo Nunes é equivocada, atrasada, como desperdiça tanto potencial da maior cidade do país.

Entre 2014 e 2019, montei minha programação com entusiasmo e postei playlists com os meus destaques de cada Virada Cultural por aqui. Espero que possa voltar a ter o mesmo sentimento algum dia.

Reprodução X (antigo Twitter)

11/05/2023 na Casa Lúpulo

11/05/2023 na Casa Lúpulo

Neste sábado, dia 11 (também conhecido como amanhã), é meu aniversário. Obviamente, não tava com vontade nem clima pra comemorar essa passagem de ano. Mas a minha irmã disse uma coisa que ficou na minha cabeça: no dia, vai ser melhor comemorar do que não comemorar.

E, nesse período contraditório e cheio de altos e baixos que eu tô vivendo, se não fiquei com vontade de COMEMORAR, fiquei com vontade de tomar uma cerveja despretensiosa com pessoas que eu amo.

Se você não tiver nada programado, estiver em São Paulo e puder aparecer lá na Casa Lúpulo (Rua Major Sertório, 282, Vila Buarque), a partir das 19h, estarei lá e ficarei feliz em te ver.

Por aqui, deixo o set que eu fiz pro meu aniversário do ano passado, que acabei nem postando aqui.

Excepcionalmente, vou deixar a lista com as 120* músicas no plugin do Spotify. E a playlist só no Spotify.

O que toca?

* O plugin do Spotify só mostra 100 músicas; na playlist tem mais 20.

Toca aqui:

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Abraço (atualizada)

Abraço

Ainda é difícil assimilar a partida da minha mãe, mas desde quando recebi a notícia tenho a sensação de que aquele dia marcou o fim de uma vida pra mim e que outra vida começaria a partir dali. Outra vida que, por enquanto, ainda não tá formatada, existe mais recolhendo os cacos e fazendo o possível. Mas é outra vida.

Outro dia, minha irmã postou algo sobre o luto que me identifiquei muito. Ela disse que três coisas ajudam a viver nessa fase: o amor e carinho dos amigos (e das pessoas que amamos), a religião (no sentido de espiritualidade, da esperança de que exista algo maior e além desse plano que compense e justifique o que tá fora do nosso entendimento) e a arte. Acrescento uma quarta: o contato e convivência com bichos – mas aqui quero focar na terceira.

Como música é a expressão artística com a qual eu tenho mais identificação, vou continuar a selecionar nesse espaço músicas pra contar estórias que façam sentido pra mim e que eu ache que possam fazer sentido pra mais gente. E como agora é o começo de outra vida, não pretendo mais atualizar/recriar playlists antigas; quero deixar elas guardadas no momento e na vida em que foram criadas.

Mas, como toda regra tem sua exceção, já começo atualizando essa Abraço. Ela foi criada num contexto MUITO diferente e, mesmo assim, tem sido gostosa de ouvir agora, mas pedia por algumas alterações.

Abraço é autoexplicativa, é música que acolhe, que conforta.

Abraço - Lado A
Abraço - Lado B

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