Entre hoje e amanhã (18 e 19/05) acontece a edição de 2024 da Virada Cultural, ou o evento que hoje usa o nome Virada Cultural e que não tem nada a ver com o que já foi.
Nesse ano, “a Virada Cultural virou virada da solidariedade” por conta do desastre ambiental que acontece no Rio Grande do Sul, mas o título, inicialmente, repetiria o mesmo usado no ano passado, “Virada do Pertencimento”. Mas que de pertencimento, pelo menos pra mim, não tem nada. E é sobre isso que quero falar aqui.
O argumento de pertencimento da Prefeitura de São Paulo, que foi o da atual secretária de Cultura, Aline Torres, em 2023, era de que descentralizar a virada faria com que o palco deixasse de ser no Copan para ser na Cohab Itaquera, como se fosse excludente fazer um evento no centro da cidade feito para a cidade toda.
Nasci e vivi até os meus 34 anos na Vila Maria, zona norte. E a zona norte de São Paulo tem uma cara muito de cidade do interior: a gente resolve tudo na própria região, sai pouco do bairro e até evita outras regiões. Tem um grupo de samba da Vila Maria, por exemplo, que o meu pai já convidou várias vezes pra tocar na Casa Lúpulo e eles nunca aceitaram nem conhecer o bar porque têm medo do centro. Não julgo, na minha adolescência também tinha medo.
Outro dia, estava conversando com um amigo também nascido na zona norte e lembrando que só começamos a visitar outras regiões a partir da faculdade, onde a gente foi conhecendo pessoas de outras regiões, com outras realidades e outras vivências. E, mesmo assim, não nos sentíamos incluídos, por exemplo, na região da Av. Paulista, por mais que existissem tantas estações de metrô com ligação fácil para lugares que a gente conhecia/frequentava, como Santana ou Barra Funda.
Meus pais também viveram isso em outra geração. A vida social era na Vila Maria ou, no máximo, nos cinemas e pastelarias da Av. Celso Garcia, no Brás (que ainda é caminho de vários ônibus que passam pela Vila Maria). Eles só começaram a conhecer esses pontos turísticos “clichê” de São Paulo, como Copan, Avenida Paulista ou Parque Ibirapuera, depois que a minha irmã e eu já conhecíamos.
E aí é que tá o meu “testemunho” sobre pertencimento. A Virada Cultural, aquela dos primeiros anos, contribuiu muito para o meu pertencimento à cidade de São Paulo. Era muito mágico passar a madrugada numa região que eu jamais frequentaria naquele horário e que nunca tinha visto cheia de gente, cheia de eventos, tudo acontecendo próximo.
Não ignoro os problemas de segurança que aconteceram em várias edições, mas sabe aquela coisa de jogar fora o bebê junto com a água do banho? É isso que foi feito com a Virada Cultural pelo Ricardo Nunes, e que se reforça nessa falácia de pertencimento.
Por que a Virada Cultural no centro da cidade (com ônibus e metrô gratuitos na madrugada, por exemplo) é menos inclusiva do que ter palcos espalhados com shows grandes em todas as regiões da cidade? O centro da cidade pertence a todos, de todas as regiões, de todas as classes sociais. Como fazer as pessoas se apropriarem do centro – e da própria cidade – tirando o único evento recente que trazia gente da cidade toda pra vivenciar a região?
Aí a Prefeitura gasta 60 milhões nessa Virada, maior investimento em dez anos, faz uma divulgação tão pífia que parece boicote, e tira o que era o diferencial do evento.
Sabe o que é a Virada Cultural? Ter um palco de música no Copan, outro na Praça da República, outro na Av. São João, outro no Largo do Paissandu, outro no Largo do Arouche – saudade do palco brega do Arouche! – e várias outras intervenções acontecendo entre um palco e outro. É caminhar pela cidade de madrugada saindo de um show e ver um video mapping, passar por um cortejo, um palco de literatura, uma exibição de clássicos do cinema numa sala que normalmente só exibe pornô e ainda ter vários bares e lanchonetes funcionando a noite toda. Não é um show da Pablo Vittar às duas da manhã no “novo” Vale do Anhangabaú cercado para o público deixar o espaço com o entorno deserto – reforçando a ideia de insegurança do centro da cidade.
Minha irmã trabalhou na Virada durante alguns anos em que fez parte do coletivo Poesia Maloqueirista, com atividades que já aconteciam no decorrer do ano. Isso trazia o público que acompanhava o coletivo para a Virada Cultural e ainda apresentava aquele conteúdo pra gente nova.
O cantor Leonardo vai receber R$ 550 mil de cachê. Tudo certo, é o cachê dele; também já vi apresentações de artistas muito famosos que devem ter cachês altos na Virada Cultural, como Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Jorge Ben Jor. Mas quanta gente daria pra contratar com menos nomes “grandes” na programação – e, principalmente, se a Virada voltasse a investir no formato original que era seu diferencial?
A Prefeitura também já argumentou contra a sobreposição de eventos num mesmo horário como justificativa para descentralizar a Virada. Então por que não fazer outros festivais nas outras regiões nos finais de semana subsequentes com alguns desses artistas que se apresentaram em horários sobrepostos na Virada? Isso permitiria que gente de todas as regiões pudessem visitar/viver o centro da cidade de madrugada da Virada Cultural, como no formato original, e ainda estimularia gente da cidade inteira a visitar todas as regiões no decorrer do mês!
Enfim, só deixo esse textão aqui porque é algo que eu sempre falo pessoalmente e que me deixa triste. É impressionante como a gestão do Ricardo Nunes é equivocada, atrasada, como desperdiça tanto potencial da maior cidade do país.
Entre 2014 e 2019, montei minha programação com entusiasmo e postei playlists com os meus destaques de cada Virada Cultural por aqui. Espero que possa voltar a ter o mesmo sentimento algum dia.