Quem acompanha o Toca fitas deve saber que é muito raro eu fazer uma playlist sobre alguém que acabou de falecer. Tenho muito receio de parecer oportunista, de dar a impressão de que tô publicando um conteúdo pra não perder o assunto do momento e tentar engajamento de carona na comoção.
Exceção foi uma playlist que fiz sobre a Rita Lee quando estava até meio ausente daqui, mas porque era a Rita Lee, e um texto logo que fiquei sabendo da partida da Gal Costa, porque era a Gal Costa.
Da mesma forma, a obra como letrista do Antonio Cicero, que nos deixou na última quarta-feira (23), foi, principalmente pra quem cresceu nos anos 80/90 e sempre foi apaixonado por música, um presente que ajudou a fazer o melhor do país que a gente tem hoje.
Sexta passada eu estive na Casa Lúpulo tocando um set de música brasileira feito ali na hora, depois de alguns meses se atacar de DJ no bar da minha família (a última vez tinha sido no aniversário da casa, em fevereiro – que, aliás, ainda nem postei por aqui).
Foi uma noite gostosa, com o bar cheio e um público simpático e receptivo, como sempre. Foi uma delícia ouvir pessoas falando bem do set, ver gente dançando… Tava um clima muito bom!
O clima refletiu no set, que deixo aqui em formato de playlist. São mais de 3h de música brasileira diversa em épocas, vozes e estilos.
Se você não foi, vou voltar a tocar periodicamente por lá, sempre anunciando antes no Instagram daqui (o @tocafitaspontocom) e no de lá (@casalupulosp).
Montei essa playlist entre setembro e novembro do ano passado, logo depois de mexer na cara do site e anunciar que voltaria a fazer listas específicas para o Toca fitas, mas acabei nunca postando.
Olhando pra trás, tudo tem um significado diferente e parece falar sobre como, inconscientemente (ou não?), a escolha das músicas e a decisão de não postar já tinham a ver com o que eu tava vivendo.
O nome “Fluoxetinianas” é daquela época, em referência ao medicamento que me ajudava a passar por um período de ansiedade, mas também tem um quê irônico se for associado àquele estigma que algumas pessoas têm – e que eu já tive – de que medicamento psiquiátrico é uma coisa que deixa quem toma alegre de forma artificial/automática, como se fosse uma chavinha que se vira pra ficar “de bem com a vida” independentemente do que esteja acontecendo.
A descrição, da mesma época, acho mais precisa e mais profunda: trilha nostálgica-solar pra colorir a vida.
Acho curioso e meio sintomático esse negócio de título/Lado A ter uma pegada mais dura e descrição/Lado B ter uma coisa mais íntima.
Sobre não ter postado, o óbvio. A gente descobriu complicações da doença da minha mãe em dezembro do ano passado. Começamos 2024 esperançosos tanto no sentido de acreditar em cura quanto no sentido de esperar mesmo, de deixar muita coisa em suspenso projetando celebração pra quando aquela turbulência de saúde passasse.
Pra se ter uma ideia, não postei nada aqui, mas fiz outro tipo de playlists naquele momento. Tinha comprado um tape deck e comecei a gravar fitas k-7, algumas pensando, por exemplo, em tocar num Natal ou ano-novo – faz anos que a gente passa essas festas de fim de ano em casa, alternando entre casas.
E essa playlist, apesar do título dúbio, ficou guardada pra esse momento mais leve. Infelizmente, não é nesse contexto que eu posto ela aqui agora.
De qualquer forma, acho importante postar. Esse exercício de revisitar os últimos meses com ela por aqui, que continua sendo extremamente doloroso, tem outros lados: ao mesmo tempo que faz perceber que muito do que a gente expressava na superfície como esperança tava cheio de medo em camadas mais profundas, também tem a beleza de ter ela por aqui – e ela fazia os dias mais bonitos mesmo quando não estava se sentindo bem.
E aí fica gostoso de ouvir. E me ajuda numa coisa muito difícil quando se passa pelo que a gente tá passando, que é ligar quem a gente já foi com essa vida nova que tá começando.
Em tempo: sou tão metódico que tenho feito playlist no Spotify com Lado A e Lado B respeitando a duração de cada lado de uma fita k-7. Pode parecer meio nada a ver, mas acho que isso ajuda a explicar porque me faz tão bem “elaborar” o que eu tenho sentido, tentar entender cada etapa desse processo, mesmo que precise revisitar o tema tantas vezes em conversas comigo mesmo.
Em tempo (2): se você leu esse textão todo, obrigado! 🙂
Essa é uma daquelas playlists que pensava em fazer há muito tempo, mas nunca saía algo que eu achasse que tinha personalidade suficiente pra ser postado. Acho que entrava naquela coisa de eu ter um gosto essencialmente solar e nada longe disso me pegar de fato.
Já devo ter comentado por aqui e/ou no Instagram que a retomada gradual do Toca fitas depois da partida da minha mãe tem, pra mim, nesse período tão triste, um sentido terapêutico de ocupar a cabeça com o processo de criação da lista, desde a escolha das músicas até a postagem – além do fato de que música me traz acolhimento, mesmo quando o tema não parece tão acolhedor.
A versão “publicável” dessa playlist cinza acessa um lugar muito específico do meu cérebro: 2004, quando eu comecei a trabalhar num departamento da Nossa Caixa que ficava do lado do metrô Tiradentes (avenida super cinza que divide os bairros do Bom Retiro e da Luz, região central de São Paulo).
Era uma época em que eu ouvia muito a Brasil 2000 FM. Muito do que aparece aqui é o que eu escutava no fone de ouvido durante a tarde, entre uma atividade aleatória e outra no trabalho. O resto é de sobreviventes das várias versões que já pensei pra essa seleção.
Vinte anos depois, acho que ela encontrou o seu espaço.
Apesar de nome + descrição (canções de migrações) serem autoexplicativas, hoje vou de textão, até porque nem todas as letras falam diretamente sobre isso.
A sequência entre “Pavão Mysteriozo” e “Passarinho”, juntas na primeira parte por causa da imagem em comum do voo, são um exemplo. Mesmo sem falar diretamente, elas trazem temas que estão em outras composições sobre migração, como liberdade, autoafirmação e saudade.
Na segunda parte, escolhi colocar “Cajuína”, que foi inspirada num encontro do Caetano Veloso com o pai do Torquato Neto anos depois da morte do poeta, porque não dá pra dizer que tanto a morte quanto o luto não estejam relacionados com passagens que se assemelham a migrações físicas. “Ponta de Areia” reforça a nostalgia da perda e, junto com “Paisagem da Janela”, faz referências à ditadura militar, que já tinham aparecido em “Pavão Mysteriozo”.
No mais, acho que chega a ser até desnecessário dizer que eu trago esse tema pra cá também pra homenagear a minha mãe e a família dela, que vieram da Paraíba pra São Paulo no final dos anos 60, passando muita dificuldade lá e aqui, e que construíram histórias admiráveis nessas décadas.
Tenho muito orgulho de ser duplamente filho da migração, na mistura do meu pai paulistano, filho de um português com uma alagoana, e da minha mãe, nascida numa cidadezinha do sertão da Paraíba pra onde ela acabou nunca mais voltando – e que eu continuo com vontade de conhecer.
Enfim, acredito que parte muito importante da música brasileira ser assim tão potente tem a ver com essa mistura toda que a gente tem por aqui.
Em tempo: juntar Belchior e Caetano Veloso foi de propósito!