Não sei se é coisa minha, que sempre gostei de música e rádio e que passei a maior parte da minha infância nos anos 80, mas tenho memória dessa época com blockbusters de trilhas sonoras muito marcantes.
Seja nos musicais exibidos exaustivamente na “Sessão da Tarde”, como “Flashdance”, “Footloose” ou “Dirty Dancing”, seja em sucessos comerciais brasileiros dos últimos anos de Embrafilme na sessão “Cinema Nacional”, música e cinema fizeram uma dobradinha bem singular naquela década.
A playlist de hoje traz uma hora disso. Alias, o nome também tem referência audiovisual. “Cinemania” era um programa da TV Manchete sobre cinema, exibido entre 1988 e 1993. Aliás, também era na Manchete que passava o “Cinema Nacional”.
Depois de mais de uma década de playlists postadas, tem muita coisa daqui que representa o momento que eu – ou que o mundo – estava vivendo quando postei. A maioria delas, principalmente sobre momentos meus, fala tudo de forma mais sutil, mas tá tudo lá.
Dito isso, a lista de hoje não tem segredo. Uma maioria de clássicos do cancioneiro brasileiro com letras combativas, afirmativas e positivas.
A única coisa de diferente é que essa é uma playlist que existe desde quando montar playlist era renomear pastas e arquivos no MP3 player, mas nunca foi postada. E foi ganhando músicas e perdendo músicas tantas vezes que hoje representa vários momentos. E muito do que eu nunca me canso de ouvir de música brasileira.
Uma saudade irreversível. O lado mais duro do amadurecimento. A naturalização do choro – tanto do comedido quanto do desesperado. Um novo convívio com uma tristeza que não existia e que agora também faz parte de quem eu sou. Mas também tem leveza, também tem beleza.
A história da construção dessa playlist é simples: músicas que aprendi a escutar de outra forma depois – e por causa – da partida da minha mãe. Mas ela só foi feita, de fato, no começo desse mês, depois do primeiro sonho que eu tive com ela sem que ela aparecesse doente. Um sonho banal, sem nada muito simbólico, mas lúcido. Tão lúcido que eu pude agradecer a ela por ter aparecido e pude pedir pra que aparecesse mais.
Nesse último ano, chorei em bares, casamentos, réveillon, carnaval. Mas estive em todas essas situações. E não fugi da dor. Até porque, desde o começo, entendi que ela era diretamente proporcional ao tamanho do amor, que sempre foi enorme. E também porque sei que é melhor viver do que reprimir.
Sobre a playlist, o começo é mais direto e mais triste; o lado B é mais sereno e mais positivo. E acho que essa é a única estória que eu quis contar: a do tempo deixar tudo gradativamente mais leve.
E é isso. Uma construção diária, mas tenho a família mais bonita que alguém poderia ter, além de pessoas que eu amo e que me fortalecem todo dia.
Em tempo: acho que só resolvi terminar de montar a lista depois do sonho porque, a partir dele, consegui fazer com que escutar essas músicas na sequência me fizesse bem.
Músicas instrumentais tranquilas pra relaxar e dormir. Têm até duas clássicas clássicas, uma abrindo cada lado… E tudo feito com sintetizadores analógicos.
E é aí que vem a maluquice. Ao mesmo tempo que têm faixas muito relaxantes (vide a sequência de “La Petite Fille de la Mer” e “Lullaby for Heidi”), também tem uma atmosfera de retrofuturismo que às vezes lembra videogame antigo e às vezes é só meio sombria mesmo – mas sombria de um jeito aconchegante, se é que isso é possível.
Vai por mim: é uma maluquice que tem um efeito bem gostoso!
Se você passou dos 35 anos, é bem provável que tenha tido contato com coletâneas de sucessos radiofônicos em LP. Elas vendiam muito, até porque muito pouca gente tinha dinheiro/espaço pra comprar os álbuns de todos os artistas que tocavam no rádio – e ninguém tinha acesso a música por outras formas que não rádio/TV e mídia física.
Acontece que, por se tratarem de sucessos *do momento*, a coisa mais difícil é encontrar, hoje, um disco que tenha só músicas que resistiram ao tempo. E isso acaba se tornando uma das coisas mais interessantes dessas coletâneas, pelo menos pra mim.
A ideia aqui era simular isso, mesmo numa seleção que tem dez anos de gravações (1981/1991): um ou outro clássico, alguns one-hit wonders e outros artistas que até tiveram mais de um hit, mas que acabaram esquecidos pela maioria das pessoas.
E, pra completar, um clima muito específico de hits dos anos 80. Cara de trilha de novela, de Lado B dessas coletâneas, de VHS com clipes de baixo orçamento gravados ao ar livre em finais de tarde cinzentos.
Uma viagem inusitada que vale uma horinha de escuta.