No decorrer do mês, vi tanta gente com tanta participação efetiva na história da Rádio Eldorado de São Paulo, extinta na virada do dia 14 para 15 de maio, que fiquei em dúvida se escrevia algo ou não. Por mais que a fala da Fabiana Ferraz, quando disse que a relação mais pura que se pode ter com uma rádio é a de ouvinte, tenha me estimulado, não queria, como ouvinte, escrever nada que caísse em clichês – ainda que eles só existam porque são reais.
Estava no Rio de Janeiro na semana derradeira da Eldorado e comprei um porta-CDs em formato de hambúrguer numa dessas lojas que misturam antiguidades com cacarecos. Chegando em casa, resolvi rechear esse hambúrguer com CDs que gravei nos anos 2000 a partir de MP3 que baixava na época e que não ouvia há tempos. E resolvi colocar um deles pra tocar. O nome da “coletânea” é ≠, em referência ao slogan “descubra o diferente”, da Brasil 2000 FM (outra marca extinta que também transmitia em 107,3 MHz), na época em que tinha o Kid Vinil como coordenador artístico.

O CD tem várias músicas que eu já incluí em outras playlists, mas juntas, nesse contexto, são como uma cápsula do tempo da minha época de faculdade. Mas esse nem é o ponto.
A Brasil 2000 do “descubra o diferente” e a Eldorado de tantas fases têm algo em comum para mim, que é a curadoria humana. É esse papel que o rádio já teve e que a Eldorado ainda tinha de apresentar músicas aos ouvintes, construindo o nosso repertório não com base só no que a gente já ouve, mas também no que poderia experimentar e gostar.
Eu nasci em 1982, mesmo ano em que o João Lara Mesquita assumiu a direção da Eldorado e começou a revolucionar a programação. Como sempre gostei de rádio e ouvia, desde criança, emissoras de todos os estilos, construí meu repertório a partir delas, e a Eldorado esteve presente em diversas fases da minha vida.
Era outro momento do mundo, eu era jovem… Enfim, “têm várias camadas” (e olha eu usando um termo clichê), mas fiquei triste com a saída da Eldorado, claro, e também – e esse é o ponto que eu queria ressaltar – com a falta de transparência na comunicação do Grupo Estado sobre esse fim.
A desculpa preguiçosa justificativa do primeiro comunicado era que o consumo de áudio tinha mudado muito depois da pandemia – apesar do crescimento da audiência de várias emissoras e até do aumento de participação daquelas voltadas ao público “adulto-contemporâneo” no top 10 de várias capitais – e que o super ascendente e vanguardista Grupo Estado priorizaria plataformas digitais, multimídia… Essas coisas que não necessariamente foram priorizadas até agora.
No último dia, depois de toda a comoção dos ouvintes, o discurso mudou para algo do tipo: “reconhecemos a relevância da Eldorado e estamos dispostos a conversar com patrocinadores e investidores para mantê-la no ar em outra frequência”. Qual das duas versões é verdadeira eu não sei, mas o contrato de quem era CLT encerrou no último dia da Eldorado em 107,3.
Fiquei triste, mas não surpreso, até porque esse fim não é de agora. Começou quando a concessão AM foi vendida para o RR Soares e a programação veio para os 92,9 FM com o nome de Rádio Estadão – frequência que também foi vendida, anos depois, para o Ratinho, que colocou no lugar sua Massa FM.
Desde que saiu dos 92,9 MHz, a Eldorado deixou de ser uma rádio comercial e de ter frequência própria; arrendou a concessão educativa da antiga Brasil 2000 (atual Fundação Gamaro). Aí é só somar: alcance menor, limitações de patrocínio pela natureza da concessão e pagamento de aluguel, tudo isso vinculado a um grupo de comunicação cada vez mais enfraquecido.
Enfim, é isso. Uma pena. É daqueles veículos de comunicação que deixam uma lacuna que não vai ser preenchida. E que, apesar das dificuldades, manteve seu esforço em zelar, até o fim, pelo nome que o Estadão jogou fora de uma hora para outra.

